O cultivo do bem

Cada um, a seu jeito, pode semear gestos de altruísmo por onde passa. Ainda que tantas vezes as aparências insinuem o contrário, vivemos em uma gigantesca aldeia amparada pela capacidade de gerar laços e tomar alguma atitude quando o outro sofre

Texto: Raphaela de Campos Mello Publicado sexta 5 fevereiro, 2016

Cada um, a seu jeito, pode semear gestos de altruísmo por onde passa. Ainda que tantas vezes as aparências insinuem o contrário, vivemos em uma gigantesca aldeia amparada pela capacidade de gerar laços e tomar alguma atitude quando o outro sofre
O cultivo do bem - Elenabsl / Shutterstock
O biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta (Cia das Letras), sustenta que “o amor universal e o bem-estar da espécie como um todo
são conceitos que simplesmente não fazem sentido do ponto de vista evolutivo”. Isso porque o objetivo último dos nossos genes é sobreviver em um mundo altamente
competitivo. A regra é simples. Os mais aptos seguem no jogo. Os mais suscetíveis sucumbem. “Tratemos então deensinara generosidade e o altruísmo porque nascemos individualistas”, escreve Dawkins,  el seguidor da Teoria da Evolução postulada por seu conterrâneo, o naturalista Charles Darwin (1809-1882).

“Freud, alguns filósofos e outros economistas ajudaram a inocular essa ideia de que não há generosidade sem segundas intenções. De que, se você vê uma pessoa
sofrendo, pode ajudá-la, sim, mas para aliviar a dor que você mesmo sente ao vê-la – se lhe fosse oferecida a oportunidade de não ver essa pessoa mal, provavelmente
você não faria questão de querer conhecer o sofrimento alheio e se deixar afetar por ele. Pelo menos, é o que eles dizem”, destacou com doçura o monge francês radicado no Nepal Matthieu Ricard, em sua passagem pelo Brasil, no segundo semestre do ano passado.

Autor de A Revolução do Altruísmo (ed. Palas Athena), o monge não acredita, no entanto, nessa forma de ver as coisas e também usa a língua da ciência para justificar que evoluímos e nossos genes estão menos egoístas do que já foram um dia. Ricard pode citar horas de pesquisas provando isso, como de fato fez durante sua palestra na Associação Palas Athena, em São Paulo. Falou, por exemplo, de um estudo conduzido pela renomada Universidade de Yale, nos Estados Unidos, com crianças
de 2 anos. “Os pesquisadores perguntavam: 'Dou essa bala a você ou ao seu colega?' Aquelas que apontavam para o outro tinham uma expressão mais feliz. Foi
tudo filmado. É um avanço do que dizia Piaget, para quem a simpatia com o outro só surgiria a partir dos 7 anos”, ilustrou Ricard.

Do mesmo lado estão outros cientistas como o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, autor de Cognição, Ciência e Vida Cotidiana (ed. UFMG), entre outros títulos. Para ele, sem a cooperação nós não teríamos ido longe. Portanto, o altruísmo, e não o egoísmo, garantiu a evolução da espécie. Na história da humanidade, prevaleceu o bem do grupo ou, nas palavras do estudioso, a biologia do amor. Maturana compara os seres humanos a sementes. Da mesma forma que estas dependem de terra boa para germinar, nós carecemos de um solo acolhedor para nos desenvolvermos. É por isso que, na visão do chileno, desde que o mundo é mundo o amor está garantindo a nossa sobrevivência. É ele que nos dá a possibilidade de formar vínculos, de pensar no coletivo.

Matriz de bondade

Mas o que é de fato altruísmo? Na definição do monge Ricard é a ação motivada pelo desejo de querer o bem ao próximo. “Muitas pessoas acham que, se alguém mais for feliz, essa felicidade estará sendo subtraída de nós. Mas há bem-estar para todos. O fato de alguém ser feliz não ameaça o nosso quinhão. Pelo contrário. Se os outros se elevam, nós crescemos também”, propaga o religioso.

A sustentabilidade depende disso. “Os índios da América do Norte, para tomar uma decisão, levam em consideração as próximas sete gerações”, conta. “O que isso tem a ver com o altruísmo? Bem, se você não se preocupar com o futuro dos  lhos dos seus  lhos, nada. Mas, se tiver consideração pela sorte do outro, vai pensar melhor no que fazer agora. Não vai penalizar os que virão lá na frente”, exemplifica. Segundo o psicólogo americano Daniel Batson, autor de  e Altruism Question e Altruism
in Humans (não publicados em português), a empatia seria o sentimento ponte para a generosidade. Primeiro, é preciso se interessar pela situação alheia, que nos toca em algum grau. Depois, como resposta, vem o gesto altruísta. Uma vez comovidos – com a ajuda de uma enxurrada de ocitocina, o hormônio dos afetos –, ensina Batson, somos capazes de estender a desconhecidos o zelo destinado a nossos entes queridos. Assim, as comunidades se fortificam. E seguem mais coesas.

Teoria compartilhada por Ricard. Para quem a corrente altruísta se desmantela, prejudicando o coletivo, quando o sentimento não é transformado em ação. O ex bioquímico, eleito em 2012 o homem mais feliz do mundo devido ao altíssimo nível de ondas gama registrado em seu cérebro, assegura que a mesma prática meditativa que lhe faz aumentar as ondas de bem-estar pode ser usada em benefício da expansão altruísta. “Meditar muda o cérebro. Se nos sentarmos em silêncio por 20 minutos ao dia, tentando treinar e refinar a ponderação, a atenção, a vigilância e o uso dessas competências para aumentar e cultivar qualidades humanas como o altruísmo e a compaixão, teremos plenas condições de sentir amor por todos ao redor”, diz o monge, que se dedica aos trabalhos de uma organização humanitária na cordilheira
do Himalaia (Karuna-Shechen) que já criou mais de 130 projetos educacionais, de saúde e sociais para a população.

Como nos tornamos mais altruístas?

Segundo Roberto Crema, psicólogo, antropólogo e reitor da Universidade Internacional da Paz (Unipaz), carregamos em nós tanto o potencial para disseminar boas ações quanto a inclinação para a indiferença. Qual lado vencerá? “Aquele que alimentarmos com nossos pensamentos, palavras, gestos e comportamentos”, diz. A seguir, oferecemos alguns exemplos de atitude que ajudam a semear o altruísmo.

• Altruísmo corriqueiro – O cotidiano nos oferece infindáveis chances de praticar boas ações, tais como dar passagem no trânsito, ceder o assento a gestantes e idosos, doar sangue ou leite materno, repassar o currículo de alguém. Basta andar por aí com o coração atento e aberto.

• Altruísmo heroico – Sair sozinho pelas ruas de um país estrangeiro a  m de levar o bem adiante não é para qualquer um. O plano requer coragem e desprendimento, atributos fartamente encontrados na estudante canadense Melina Cardinal, 21 anos. Três vezes por semana, ela, que está de passagem pelo Brasil, se senta em calçadas do Rio de Janeiro para dar aulas de inglês a moradores de rua. Com isso, quer iluminar capacidades e reconstruir a autoestima dessa população invisível aos olhos de muita gente. No final dos encontros, a professora ainda oferece lanche aos alunos. A atenção é completa.

• Altruísmo despretensioso – O médico norte-americano Gary Morsch se ofereceu para trabalhar temporariamente no Lar dos Moribundos de Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), na Índia. Ao chegar lá, entregaram uma pá para ele remover o lixo. Ele lembrou a todos que era médico e foi levado à Madre Teresa, que disse: “Nós podemos fazer pequenas coisas, mas com grande amor”. Ele entendeu a lição: o verdadeiroaltruísmonão exatamente tem a ver com quem se é e o que se faz. Mas com estar disponível para fazer o que precisa ser feito. O depoimento consta do livro O Poder de Servir aos Outros – Comece por Onde Você Está (Ed. Larousse), que Gary escreveu após a experiência.

Último acesso: 31 Mar 2020 - 18:56:06 (1011442).