Diferenças culturais

Pequenos erros de conduta podem criar abismos entre pessoas. Por isso, recomendo estudar a linguagem corporal de um povo, mais do que o idioma dele

Texto: Monja Coen Publicado quinta 11 fevereiro, 2016

Pequenos erros de conduta podem criar abismos entre pessoas. Por isso, recomendo estudar a linguagem corporal de um povo, mais do que o idioma dele
Monja Coen - Michel Filho / Agência O Globo
Um empresário americano foi fazer negócios no Japão. Foi muito bem recebido, com grande amabilidade. Estavam quase fechando o contrato quando o convidaram a jogar golfe e almoçar à beira de um lago belíssimo. O jogo de golfe foi bom. Todos se divertiram. Sentaram-se para almoçar bolinhos de arroz e outros petiscos próprios da ocasião. O americano estava sentado de costas para o lago. Alguns dos participantes do encontro comentavam sobre a beleza e tranquilidade das águas. O americano se virou e ficou sentado de costas para o grupo, apreciando a natureza. A negociação foi cancelada, pois o americano havia dado as costas ao grupo, e isso é considerado um desrespeito muito grave. Como dar as costas ao contrato, aos amigos? 

Diferenças culturais devem ser compreendidas e respeitadas. Um dos diretores da Sôtô-Shû no Japão, ordem à qual pertenço, conversava com a superiora de nosso mosteiro feminino: “Temos de nos preparar para os Jogos Olímpicos. Jovens monges devem viajar e aprender costumes e línguas estrangeiras. Não devemos apenas querer que os estrangeiros se adaptem a nossos costumes e língua. Precisamos ser internacionais.” Nossa superiora balançava a cabeça, duvidando. Jovens monges passando três meses em algum país não seriam capazes de aprender muito. Quanto tempo leva uma pessoa para aprender uma língua estrangeira e, com ela, a forma de pensar e de ser de uma cultura?

Fiquei dois anos em silêncio no mosteiro. Ouvia, pouco compreendia. Certa ocasião, nossa superiora recebia um hóspede ilustre e me incumbiu de servir o chá. Preparei tudo de forma adequada, afinal eu apreciava muito a cerimônia do chá. Mas não sabia falar japonês. Coloquei delicadamente a chávena em frente ao hóspede e disse: “Beba!”. 

A superiora corou até o topo da cabeça: “Coen-san precisa ter aulas de japonês”. Sim, tudo o que eu aprendera eram comandos diretos e imperativos. Afinal, era assim que falavam comigo. (...) Levei anos para melhorar meu vocabulário e aprender como pensa o povo japonês. A gestualidade e a comunicação corporal são diferentes. No mosteiro, eu procurava ser educada e falava sempre em pé com minhas superioras. Estas fi cavam sentadas no chão. Consideravam arrogância o fato de eu me manter de pé. Deveria estar no mesmo nível físico que elas ou em um nível inferior. Ninguém me dizia nada. Até que um dia uma outra monja que caminhava ao meu lado pelos corredores do mosteiro ajoelhou-se ao ver a abadessa se aproximar e falou com ela o tempo todo com as mãos postas. Aprendi, finalmente. Mas a fama de orgulhosa continuou.

Um professor de natação entra em uma sala de aula do terceiro ano e pergunta aos alunos: “Quem sabe nadar?”. Nos Estados Unidos, todas as crianças levantam a mão. Algumas ainda não sabem nadar direito. Outras nunca nadaram. No Japão, nem mesmo o melhor nadador da classe levanta a mão. Está aprendendo, ainda não sabe.

Último acesso: 31 Mar 2020 - 20:07:03 (1011676).