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Pensamento infectado: saiba o que é e como se livrar da imposição de ideias alheias

Autores mostram que a imposição de ideias contamina desde os modelos educacionais arcaicos até as mais recentes estratégias digitais, gerando os pensamentos infectados

Artigo de Sandra Teschner Publicado quarta 24 novembro, 2021

Autores mostram que a imposição de ideias contamina desde os modelos educacionais arcaicos até as mais recentes estratégias digitais, gerando os pensamentos infectados
Pensamento infectado: saiba o que é e como se livrar dele - FREEPIK

Controlar a narrativa não transforma a verdade pessoal do narrador em fatos; trata-se meramente de uma percepção individual ou mesmo de um enredo construído intencionalmente para se tornar palatável a um grupo de pessoas. Este grupo, por sua vez, faz a mensagem ressoar, aceitando a narrativa de alguém como um conceito universal, não passível de discordância, pois carrega, supostamente, o peso da verdade absoluta.

A relação de ideias passa, então, a fazer às vezes de evidências científicas e o pensamento, subjugado à cartilha de seus autores, proporciona um grande estrago ao diálogo, além de gerar infelicidade. Nenhuma novidade que um mínimo de observação da comunicação contemporânea já não tenha comprovado.

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Não é de hoje que filósofos tentam jogar luz nas trevas das diferenças. Segundo Immanuel Kant, pensar é uma atividade autônoma, e que requer coragem para exercê-la. Em sua "Crítica à faculdade de julgar", Kant pontuou: "Queremos submeter o objeto aos nossos próprios olhos, como se nossa satisfação dependesse dessa sensação. E se chamarmos, então, o objeto de belo, acreditamos ter uma voz universal e reivindicamos a concordância de todos".

O filósofo alemão Anders Indset introduz seu livro "O pensamento Infectado" (ainda sem tradução em português) com a seguinte máxima: "O absolutismo nos impede até mesmo de imaginar um mundo justo para nossos netos".

Numa crítica que vai dos modelos educacionais arcaicos às redes sociais, Indset apela para que assumamos a responsabilidade pelas próximas gerações e possamos recuperar a empatia, a compreensão e a responsabilidade uns pelos outros. Defende uma nova forma de pensar que se distancia do óbvio, questiona nossas atitudes básicas que não apenas permitem mudanças, mas as acolhem: "Temos que nos abrir ao outro, aos paradoxos e simultaneidades - para reconhecer as forças efetivas em tempo hábil e agir em conformidade - antes que a sociedade seja abalada por novas catástrofes" (livre tradução do alemão).

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Já o psicólogo organizacional e professor da renomada Wharton School, Adam Grant, traz a arte de repensar em seu livro "Pense de Novo", recém-lançado no Brasil, um questionamento sobre nossas próprias opiniões. Grant afirma que a inteligência é geralmente vista como a capacidade de pensar e aprender, mas, em um mundo em rápida mutação, há outro conjunto de habilidades cognitivas que podem ser mais importantes: a capacidade de repensar e desaprender.

O autor explica ainda que a maior parte das pessoas prefere o conforto da convicção, ao desconforto da dúvida e veem o desacordo como uma ameaça.

"Em geral só damos ouvidos às opiniões que confirmam as nossas" e sugere como antígeno:

• abraçar a alegria de estar errado;

• trazer novas nuances para conversas difíceis;

• mostrar com clareza e bom humor que é possível manter a mente aberta, sem perder o poder de convencimento, nem a autoconfiança.

Comunicação empática como antídoto ao pensamento infectado

Comunicar assertivamente não é só sobre forma, técnica, mas aceitação de diferenças e requer conhecimento. A menos que possamos explicar o conteúdo a outros, nada "sabemos", e, ao ensinarmos, chegamos ao ápice do nosso próprio aprendizado.

O psiquiatra americano William Glasser mostrou que 95% de efetividade do nosso aprendizado acontece quando explicamos, resumimos, estruturamos ou elaboramos o conceito para outras pessoas.

Segundo o escritor Shannon Terrell, quando nos sentimos compreendidos, sentimo-nos mais capacitados para falar. A comunicação reduz também os ruídos do chamado diálogo interno, aquela voz em nossa mente responsável por sabotar nosso bem-estar.

Muito difundida também é a técnica conhecida como comunicação não violenta, ou CNV, criada pelo psicólogo Marshall Rosenberg. A metodologia visa construir relacionamentos e resolver conflitos, através de um treinamento muito simples, porém contínuo:

• Esteja atento a seus julgamentos - Tente observar o que você está dizendo a si mesmo, sobre o porquê de alguém estar fazendo algo;

• Identifique os fatos - Desfaça quaisquer julgamentos. Tente descrever a situação do jeito que uma pessoa fora do contexto faria;

• Nomeie seus sentimentos - Descreva como você está se sentindo;

• Identifique e declare as necessidades básicas que levam a esses sentimentos;

• Faça seu pedido - O que a outra pessoa poderia claramente fazer para atender suas necessidades?

• E não esqueça: O outro pode não estar disposto a atender ao seu pedido, contudo comunicar ainda é um ponto de partida para iniciar a conversação.

A Felicidade tem raízes nas nossas necessidades e valores; somos responsáveis pelos nossos próprios sentimentos. Outras pessoas podem ter influência em nossas escolhas, mas a decisão de como reagiremos é nossa.

De acordo com Sandro Formica, Professor de Ciência da Felicidade, na Florida International University, nas organizações, por exemplo, constroem-se imagens inimigas de colegas que poderiam facilmente ser evitadas através da eliminação de filtros cerebrais negativos e criando mais conexões.

Formica sugere o uso de qualquer forma de comunicação empática, que envolva necessidades e valores de todos, de emissores a receptores. O resultado disso é a redução de conflitos, o aumento de comprometimento organizacional e a promoção de sentimento de pertencimento.

Narrativas não são fatos, assim como o pensamento não é só uma relação de ideias. Discordar agrega valor a todas as partes, mas há que se comunicar de forma empática, sabemos o que não sabemos. Repensar e Desaprender são habilidades cognitivas de ponta. É ensinando que aprendemos e só sabemos quando conseguimos explicar. Comunicação não violenta desarma.


*Sandra Teschner é chief happiness officer, certificada pela Florida International University e fundadora do Instituto Happiness do Brasil, centro de estudos e projetos de Felicidade Intencional. Também é escritora, palestrante e engajada social.

Último acesso: 02 Dec 2021 - 01:18:24 (1046152).