Dia Mundial do Autismo: como o coronavírus pode afetar a vida das crianças com transtorno? Especialista tira dúvidas sobre o assunto

Neurologista infantil esclarece questões sobre a relação entre o coronavírus e a vida das crianças autistas

REDAÇÃO BONS FLUIDOS Publicado quinta 2 abril, 2020

Neurologista infantil esclarece questões sobre a relação entre o coronavírus e a vida das crianças autistas
Como o coronavírus pode afetar a vida das crianças com autismo? - Pixabay

Hoje, dia 2 de abril, é comemorado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo de 2020!

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), ou simplesmente autismo, é uma condição de saúde caracterizada pelo deficit na comunicação social, podendo ser verbal ou não verbal, e em relação ao comportamento da pessoa, marcado pelo interesse restritivo e movimentos repetitivos.

Infelizmente, o Dia Mundial do Autismo coincidiu com um período difícil para todos nós: a crise em decorrência do novo coronavírus. Pensando nisso, existe alguma relação entre o Covid-19 e o transtorno, principalmente no caso das crianças? Como os pais devem lidar com os filhos autistas durante a quarentena?

Doutor Clay Brites, pediatra e neurologista infantil do Instituto NeuroSaber, conversou com a revista Bons Fluidos e esclareceu algumas questões sobre o assunto.

1. A criança autista está no grupo de risco do coronavírus? Autistas com comorbidades devem ter um cuidado maior?

Pelo diagnóstico de altismo, não, ela não é uma criança que está no grupo de risco. O transtorno não aumenta as chances dela de ter problemas em relação ao coronavírus. Ela pode estar mais suscetível à doença pela condição infantil dela, ou por comorbidades (quando duas ou mais doenças estão etiologicamente relacionadas) que normalmente atingem crianças com autismo. Os autistas costumam ter mais alergias, costumam ter bronquite, asma, 30% deles têm algum tipo de condição alérgica associada. Outros têm, além do autismo, uma síndrome genética associada que pode ter correlação, dependendo do tipo de síndrome, com alguma imunodeficiência, ou algum tratamento recente de alguma neoplasia, de algum câncer, ou pode apresentar alguma má formação que envolva o sistema respiratório. Então, dentro dessas particularidades, ela passa naturalmente a ser uma criança de risco, mas não pelo autismo em si.

2. A rotina das pessoas por causa do coronavírus foi modificada. De que forma o autista pode ser afetado com isso?

Inicialmente, com a mudança recente de rotina que estamos tendo nos últimos dias, sim, isso passa a ser difícil para a criança com autismo. Mas criando condições dentro de casa para manter uma rotina específica, oferecer para a criança com autismo coisas que ela gosta de fazer, para que ela desenvolva o hiperfoco e a motivação excessiva, ajudarão essas crianças. Se você vai ficar em casa sem fazer nada, então vamos dar à criança algumas atividades. Atividades pedagógicas inclusive, que ela goste de fazer. É uma forma da família continuar a estimulação, não só social, mas a acadêmica dessa criança também. Aproveitar para ajeitar horários, não deixar a criança com autismo dormir muito tarde nem acordar muito tarde, porque ela tem que manter a rotina de outrora, para que, quando a gente retomar lá na frente a volta às aulas, ela já esteja com essa rotina praticamente inalterada.

3. O isolamento pode ser um problema para a criança autista? Ela pode ficar mais agressiva, por exemplo?

É possível a criança com autismo ficar mais agressiva, ter crises de ansiedade, quadros depressivos, tudo isso é possível. Mas acredito que, como ela vai estar com a família, vai estar dentro de um ambiente em que ela já está habituada a ficar, com os sons que ela está habituada, com os processos visuais e auditivos dos quais ela já está habituada, eu acredito que esse seja um risco não muito considerável, mas são riscos inerentes sim.

4. Como os pais podem conscientizar as crianças autistas sobre a importância de se prevenir do coronavírus? Quais atividades os pais podem fazer em casa com as crianças autistas?

O ideal para fazer todo esse trabalho de prevenção é colocar desenhos, figuras desenhadas, vídeos, mostrando para ela como proteger a mãozinha, porquê não colocar a mãozinha na boca. Tudo o que for visual, concreto, com informações simples e sequenciais, isso tudo a criança com autismo tem grande habilidade em assimilar.

5. A medicação deve ser mantida e consultas médicas do autista?

O tratamento da criança com autismo com medicações, com as orientações dadas em consultórios psicológicos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiológico, enfim, orientações das equipes multidisciplinares que atendem essa criança, devem ser mantidas pela família durante esse período todo. Mesmo que ela venha a ficar doente e precise tomar anti-inflamatórios, ou tomar remédio para a febre, ou tomar antibióticos, as medicações que normalmente ela toma para o controle do seu comportamento devém ser mantidas.


Doutor Clay Brites, pediatra e neurologista infantil do Instituto NeuroSaber. Um dos idealizadores do Instituto NeuroSaber (www.neurosaber.com.br), Dr. Clay Brites é neurologista infantil,  tem título de especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria e doutor em Ciências Médicas pela UNICAMP. 

Pediatra e Neurologista Infantil (Pediatrician and Child Neurologist); Doutor em Ciências Médicas/UNICAMP (PhD on Medical Science); Membro da ABENEPI-PR e SBP (Titular Member of Pediatric Brazilian Society); Speaker of Neurosaber Institute

Último acesso: 03 Jun 2020 - 06:15:54 (1042491).