Como uma alimentação rica em açúcares pode afetar a saúde mental? Psiquiatra e nutrólogo responde à questão

"Ao ingerir alimentos com muita glicose, logo secretamos bastante insulina para controlar a quantidade dessa substância no organismo. A glicose vai embora e em cerca de meia hora estamos com fome novamente", explica o Dr. Frederico Porto

Bons Fluidos Publicado terça 26 outubro, 2021

Como uma alimentação rica em açúcares pode afetar a saúde mental? Psiquiatra e nutrólogo responde à questão - Foto de Artem Podrez no Pexels

A relação entre doenças mentais e alimentação fica cada vez mais clara com o passar do tempo, mostrada por evidências clínicas e estudos científicos. E isso vale para ambos os sentidos: tanto a comida como válvula de escape para lidar com a doença (ansiedade, por exemplo), quanto favorecer doenças psiquiátricas, como depressão.

O médico psiquiatra e nutrólogo Frederico Porto explica ser muito frequente que, durante picos de estresse, as pessoas tendam a descontar na comida, geralmente ingerindo alimentos ricos em açúcar.

O Brasil é o 4º maior consumidor de sacarose do mundo, de acordo com levantamento recente da Sucden, multinacional do ramo açucareiro. A recomendação da OMS é que apenas 10% dos alimentos consumidos por dia venham do açúcar, mas os brasileiros costumam consumir 16,3%.

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O consumo ocorre, segundo Porto, por um mecanismo bioquímico natural. O médico psiquiatra explica que, sob estresse, o corpo produz adrenalina, hormônio que funciona como um mecanismo de defesa para que a pessoa fuja de perigos. “Automaticamente, é secretado no sangue glicose, substância que fornece energia ao corpo para reagir àquilo que sente como ameaça”, diz.

Quando a pessoa termina de resolver um relatório ou de escrever um e-mail que a deixou tensa, continua o médico psiquiatra, ainda há muita glicose disponível em seu sangue. O corpo então reage secretando insulina, hormônio responsável por controlar a glicose no organismo. O problema é que ao fazer isso, em um intervalo curto de tempo, a fome aparece, pois o corpo precisa de energia. “É nesta hora que vem a vontade de comer um doce”, comenta.

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O grande problema, segundo o nutrólogo, é o açúcar ser de rápida absorção. “Ao ingerir alimentos com muita glicose, logo secretamos bastante insulina para controlar a quantidade dessa substância no organismo. A glicose vai embora e em cerca de meia hora estamos com fome novamente. Forma-se um ciclo vicioso”, destaca.

Para quebrar essa associação entre estresse e comida, o Dr. Frederico Porto recomenda que as pessoas adquiram o hábito de ingerir alimentos com índice glicêmico maior, que são aqueles absorvidos mais lentamente pelo organismo, mantendo os níveis de açúcar no sangue em um nível ideal. Entre alimentos desse tipo estão: laticínios, leguminosas, vegetais, oleaginosas e alguns cereais integrais, como aveia, arroz, milho e quinoa.


Perfil do Dr. Frederico Porto
Formado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com especialização em psiquiatria pelo Hospital das Clínicas da mesma universidade, apresenta ainda a formação de nutrólogo pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Atua como professor convidado da Fundação Dom Cabral, em Belo Horizonte, e consultor sênior associado a consultorias internacionais. É palestrante in company e autor de dois livros.

Último acesso: 01 Dec 2021 - 23:58:07 (1045924).